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A história das tranças:

  • Foto do escritor: Educonexão Fund Séries Finais
    Educonexão Fund Séries Finais
  • 8 de mar. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de mar. de 2022



uma narrativa sobre ancestralidade, religiosidade, resistência, estética e sobrevivência


As aulas de História, Geografia e Ensino Religioso configuram-se como espaços reais para efetivação do conhecimento referente à sociedade africana e afro-brasileira, como já propunha a Lei de nº 10.639/20031. Mas, é importante ressaltar aqui, que esta Lei não restringe a transmissão de conhecimento apenas a esses componentes curriculares, pelo contrário, ela é uma responsabilidade de toda e qualquer área de conhecimento.


Durante a I Exposição Pedagógica Interdisciplinar da Escola Municipal Prof. Raimundo Mata, em 17 de dezembro de 2021, deparei-me com uma Estação2 intitulada “Arte em tranças” que apresentou uma compreensão das tranças (diferentes formas de penteados) em diversas perspectivas. E, através das tranças é possível conceber o conhecimento interdisciplinar e abrangente, das relações sociais em diferentes escalas geográficas e contextos históricos. As estudantes do 9º ano da Escola Raimundo Mata, expuseram de forma brilhante a dimensão do conhecimento que se pode ter por meio da história das tranças. A partir de pesquisas e estudos realizados por elas, descobriram que as tranças africanas representam uma riqueza de informação e conhecimentos que diz respeito ao modo de vida das pessoas que constituem essa sociedade e, lógico, tais conhecimentos se reproduziram no Brasil com os africanos oriundos de diversas regiões da África, durante o período da trágica diáspora africana, imposta pelos povos europeus.


Fotos: Estação Arte em tranças (Turma 9º ano) – I Exposição Pedagógica Interdisciplinar da Escola Municipal Professor Raimundo Mata (dezembro de 2021).


1- Estudantes: Isadora de Jesus Araújo Nery e Daniele Reis Santos; 2- Cartaz elaborado pela turma, 3- Silvana Maciel



A Estação Arte em tranças foi resultado de um trabalho desenvolvido pela professora de História e Ensino Religioso Márcia Alves (foto)3 e seus alunos (as), durante as suas aulas. Inclusive, segundo a professora, o tema foi proposto por uma das alunas da turma – a Marta Ribeiro de Jesus. A turma foi orientada a pesquisar sobre o tema e trazer os resultados para discussão em sala de aula.


A partir desse trabalho lindo e tão significativo foi possível aprender que as tranças, através dos seus inúmeros formatos, representam uma diversidade de informações como, por exemplo, pode significar a identificação das nações africanas, status social, estado civil, indicam proximidade e proteção religiosa e, portanto, constituem arte, moda, poder e uma forma de ser no mundo. Ou seja, “Manipular o cabelo com tranças é técnica histórica, presente em muitas nações africanas. (...) Mas o simbolismo vai além do movimento e da beleza, representa poder, luta, resistência ostensiva, informação e sistema de linguagem” (Site Primeiros Negros, 2021).4


Professora de História e Ensino Religioso Márcia Alves

O sistema de linguagens mesmo é algo importantíssimo para compreender o movimento de resistência, de luta e enfrentamento ao regime escravocrata a que foram submetidos diversos povos africanos aqui na América. Vale ressaltar ainda, que as tranças eram penteados comuns às mulheres e aos homens africanos. E, a partir dos penteados com tranças, as pessoas estabeleciam comunicações sobre seus desejos de fugas e traçavam as rotas ou mapas que orientavam essas fugas para os quilombos, nas cabeças umas das outras. As tranças, também, eram utilizadas para esconder ouro, mensagens e sementes (arroz, milho, feijão), como estratégia de sobrevivência, pois com as sementes poderiam plantar e cultivar roças e assim estabelecer uma soberania alimentar, sobretudo, nos quilombos.


É ou não é fantástico conhecer sobre a história das tranças?


Uma técnica que está para além do nosso tempo e para além da estética, mas que envolve um acervo de conhecimentos de tantas áreas como a Arte, a História, a Geografia, a Religiosidade entre outros. Uma forma de se expressar no mundo, um sistema de linguagens que diz tanto sobre as sociedades africanas, suas manifestações culturais, experiências de vida e de sobrevivência num mundo tão desumano. Essa é a história dos nossos antepassados e diz muito sobre a formação da nossa sociedade afro-brasileira, diz muito sobre mim mesma, uma mulher negra afro-brasileira.


Fotos: Estação Arte em tranças (Turma 9º ano) – I Exposição Pedagógica Interdisciplinar da Escola Municipal Professor Raimundo Mata (dezembro de 2021).


1- Marta Ribeiro de Jesus, 2-Cartaz elaborado pela turma, 3- Camile Ramos de Jesus e a professora Márcia Alves


1 A Lei nº 10.639 de 09 de janeiro de 2003, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", e dá outras providências.

2 Cada temática apresentada na Exposição estava organizada por Estações, seções temáticas.

3 A professora Marcia Alves Damasceno Souza é Licenciada e Pós-Graduada em História pela Faculdade de Tecnologia e Ciência (FTC).


4 Disponível em: https://primeirosnegros.com/trancas-ancestralidade-e-resistencia/ Acesso em: 16/01/2021.



Silvana Maciel Pires, Geografia (UNEB),

Mestre em Planejamento Territorial (UEFS),

Articuladora de Geografia (SMEC).




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