Fulgurações da práxis interdisciplinar
- Educonexão Fund Séries Finais

- 8 de mar. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de mar. de 2022

Durante o terceiro e último trimestre do ano letivo de 2021, fui designado a trabalhar com algumas turmas da Escola Municipal Professor Jorge Luís Ferreira Teixeira. Ao chegar na instituição de ensino, fui informado que o tema gerador das aulas e atividades com os discentes seria: “A tecnologia no centro de tudo: o que esperar de um mundo digitalizado?”.
A partir do contato inicial com a Coordenadora Sandra Patrícia da Costa Ribeiro e de provocações de alunos, aproveitei os jornais que leio semanalmente para engendrar um material para reflexão junto a algumas turmas. Separei matérias da BBC News Brasil para tratar do papel das redes sociais no aumento brutal dos casos de depressão e suicídio, dentre outros que tratam das novas tecnologias.
A abordagem concernente à nocividade das redes sociais teve como inspiração a provocação inconsciente de alguns alunos do 8º ano, que já no nosso primeiro encontro utilizavam de modo desenfreado seus smartphones para entretenimento durante a aula. Tive de chamar a atenção em diversas oportunidades. Mas a minha reflexão, de fato, só apareceu após chegar em casa e rever os arquivos de jornais que eu havia lido e assistido durante o ano e separado para eventualmente usar como bagagem para alguma aula.
As matérias da BBC me ajudaram a levar aos discentes a ideia da contradição que essas novas tecnologias - smartphones associados quase que somente às redes sociais - trazem praticamente em concomitância. Se levarmos, por exemplo, ao pé da letra a etimologia do termo “tecnologia”, encontramos: téchne, que pode ser definido como "arte" ou "ofício" e logia, que significa "o estudo de algo". Já em termos conceituais, podemos definir como os conhecimentos que permitem fabricar objetos e transformar o meio ambiente, com o intuito de atender às necessidades humanas.
A incongruência das novas tecnologias mora, portanto, no fato de não atenderem plenamente às necessidades humanas, mas, pelo contrário, causar alguns problemas: além dos já mencionados transtornos de ordem psicológica, podem levar à perda de desempenho nos estudos e no trabalho e a fragilização do contato presencial entre pessoas.
Os exemplos que levei à sala foram chocantes, mas acredito que foram cruciais para que minhas aulas posteriores pudessem ser realizadas com a participação efetiva dos alunos. Não à toa, essa mesma turma apresentou com maestria um trabalho (aparentemente complexo à média de idade dos discentes, tendo em vista que relacionava racismo, Covid-19, desigualdade social e a importância de um sistema de saúde público) ao núcleo da Secretaria de Educação de Catu.
As bases para a apresentação citada acima surgiram após articulação de uma outra atividade, realizada no Colégio Estadual Maria Isabel de Melo Góes. Na oportunidade, aproveitei o tema do projeto mensal da instituição, “Novembro Negro”, para, junto a alguns discentes, entrevistarmos dois amigos meus que são do continente africano e atualmente residem no Brasil: Galileu, de Guiné-Bissau, e Euclides, de Angola. A ideia foi desconstruir os muitos estereótipos que nós brasileiros temos sobre o dito continente, que os vincula frequentemente à fome, miséria, pobreza, doenças e selvageria.
Como a temática do projeto da Escola Municipal Jorge Luís versava sobre a mesma do Colégio Estadual Maria Isabel de Góes, pensei em também descontruir algum estereótipo. Nesse sentido, a pauta entrelaçou-se ainda mais com a questão interdisciplinar, proposta central da rede municipal de ensino.
A partir da mini diagnose oral que fiz no primeiro contato com os estudantes e levando em conta que eles passaram cerca de 1 ano e meio em casa, e que o aprendizado institucional deles foi muito abaixo do pré-pandemia, minha ideia direcionou-se justamente à temática sobre a qual eles tinham mais informação: a própria pandemia da Covid-19. Mesmo que muitos dos conhecimentos que eles adquiriram sobre a referida doença e seus desdobramentos individuais e coletivos não fossem tão bem articulados ou fossem até mesmo equivocados, a carga de conteúdo com a qual eles foram bombardeados - através do contato com familiares, amigos, televisão, redes sociais e outros meios - já formava uma base estupenda para ajudar o nosso projeto.
Levando em consideração que um dos assuntos que estávamos tratando na matéria de Geografia eram as configurações populacionais do continente americano, e que na minha diagnose percebi a grande proximidade de muitos alunos com a sociedade dos EUA e de influencers brasileiros que lá residem, encontramos aqui o último ponto para alicerçar o nosso trabalho.
Somamos então a questão racial, a pandemia e os sistemas públicos de saúde, e as características populacionais do Brasil e dos EUA. Como na questão dos malefícios das redes sociais tratada no início do texto, esse trabalho posterior também teve como combustível o meu contato semanal com jornais – mais um reforço da importância de o docente manter-se atualizado. Mais uma vez a BBC News Brasil foi suscitada, com uma matéria do início da pandemia, que apontava que as mortes por Covid-19 nos EUA atingiam mais intensamente, em termos percentuais, a população negra que a branca.
Nas três semanas que tivemos para elaborar esse trabalho, fiz diversas pesquisas para encorpar as nossas aulas e deixar os meninos a par dos principais conceitos e detalhes, por mais complexos que parecessem. Uma das primeiras ideias foi quebrar o estereótipo dos EUA como o suprassumo das sociedades ocidentais. Os pontos positivos do país, como sua riqueza e o fácil acesso da população a bens de consumo, os meninos já conheciam. Assim, o cerne foi para a desigualdade social, o racismo e a falta de um sistema público de saúde como o do Brasil. Abordei, por exemplo o quão caro é fazer no país norte americano um procedimento médico que consideramos simples aqui no Brasil, justamente por contarmos com o SUS.
No entanto, a ideia mais importante foi oriunda de matéria que a BBC trazia: os negros como parcela da população mais atingida pela Covid-19 nos EUA. Tratamos a partir daí de como no meio da desigualdade estadunidense a população negra é a que mais está relacionada às camadas mais baixas da pirâmide social, o que é fruto do histórico escravista e de um posterior sistema de segregação racial que perdurou oficialmente até a década de 1960, mas que deixa traços nítidos até hoje.
Desse modo, refletimos sobre como a população negra estava morrendo mais que a branca, em grande parte pelo medo de ir ao hospital sem estar realmente precisando de atendimento, e ter de arcar, ao final do tratamento, com valores desproporcionais ao seu padrão de vida. Além disso, percebemos que as piores condições sanitárias e os empregos que traziam uma taxa maior de contágio pelo vírus – tanto pelo uso de transportes públicos por tempo considerável, quanto pelo contato direto com outras pessoas -, eram derivados justamente da desigualdade social.
Após todas essas discussões e de passarmos interdisciplinarmente pelos conceitos básicos da Biologia, os dados da Matemática, as análises da Sociologia, o panorama da Geografia Política e as lições da História, caminhamos para o final do processo, quando refletimos acerca da importância do nosso Sistema Único de Saúde (apesar de sabermos que ele ainda precisa melhorar bastante, principalmente para a população mais pobre) e do combate ao racismo e à desigualdade social.
Na apresentação do trabalho, os meninos e meninas destoaram daquele formalismo desnecessário dos seminários e, apesar de tratarem das principais questões em pouco tempo, demonstraram o mais importante de tudo: que saíram dessa experiência mais maduros e com uma bagagem que pode ajudar bastante um adolescente de escola pública a lidar com o mundo à sua volta.
Num momento tão delicado pelo qual passa a educação brasileira, é revigorante ver o esforço docente, com base no sistema ensino-pesquisa, trazer bons retornos a curto prazo. No canto III da Divina Comédia, de Dante Alighieri, há uma passagem que aponta o seguinte trecho no alto de um portal: “Deixai toda a esperança vós que entrais”. Abandone sua esperança, e estará no inferno!
Essa conclusão certamente caminha em paralelo com a docência. Basta que nós, professores, abaixemos a guarda nas expectativas, e toda a nossa carreira e o nosso papel nos avanços na área serão postos em xeque.
Erick de Araújo Melo, História (UNEB),
Pós-graduando em Estudos Africanos e Representações da África (UNEB),
Professor de Geografia das escolas municipais: Des. Maria Gabriela Sampaio Seixas e
Prof. Jorge Luís Ferreira Teixeira.






Comentários