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Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP): a pedagogia da pedra

  • Foto do escritor: Educonexão Fund Séries Finais
    Educonexão Fund Séries Finais
  • 8 de mar. de 2022
  • 6 min de leitura

Atualizado: 13 de mar. de 2022


Professoras que participaram da OLP: Libânia Santana Silva Ferreira, Gisele Mota Santos da Silva, Rejane Sousa dos Anjos, Jamile dos Santos Correia, Lídia Monte dos Santos Batista, Mônica Santana Pessoa, Ionara França Conceição de Oliveira e Elisângela de Jesus da Silva.



A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta: lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.


João Cabral de Melo Neto



A epígrafe mostra que a pedra é fria, dura, sem propósito, que nada faz, e pode tornar-se outra coisa. Na primeira estrofe, a concretude dela relaciona-se com a escrita, mas na segunda é transportada para o sertão, para a alma do sertanejo. Podemos aqui tecer uma analogia entre o fazer do poeta e do(a) professor(a). O teor da semelhança consiste no fato de que ambos lidam com a pedra, a palavra escrita. E tanto para o poeta quanto para o(a) educador(a), o ato de educar-se pela pedra é árduo, mas aprende-se por ela própria.

Nessa linha de raciocínio, apresento o caminhar entre pedras das professoras de Português diante da proposta da 7ª Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro (OLP), uma iniciativa da Fundação Itaú para Educação e Cultura, sob a coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC Educação) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), tendo como tema “O lugar onde vivo”, – a construção de uma trilha literária com os estudantes no contexto da pandemia em que o Relato de prática do(a) professor(a) é que seria o objeto da avaliação.


O concurso literário modificou o formato em 2021, pois os organizadores buscaram legitimar como protagonista o(a) professor(a) e a sua turma de estudantes. Deste modo, não foi o melhor texto do aluno que foi avaliado, mas sim o Relato de prática docente, o Álbum da turma e a Linha do tempo (duas produções preliminares e duas produções finais de cada um dos dois estudantes eleitos). Esse material foi selecionado pela professora e sua própria classe, julgado por uma Comissão Julgadora Escolar, sob a responsabilidade da diretora da escola.


A inscrição das professoras foi efetivada no dia 20/05 do ano corrente. As escolas que participaram foram: Anna Ribeiro de Araújo Góes Bitencourt, Des.ª Maria Gabriela Sampaio Seixas, Dom Justino José de Santana, Geminiana de Souza Assunção, Gilberto Alves de Araújo, Laura Batista, Prof. Jecelino José Nogueira, Prof. Jorge Luís Ferreira Teixeira, Prof. Raimundo Mata e Themístocles Cézar Góes. Exceto a escola Prof. Jorge Luís Ferreira Teixeira, as demais unidades de ensino tiveram apenas uma turma participando da OLP.

As categorias em que a Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC) participou, foram: Memórias literárias (6º e 7º Ano) e Crônicas (8º e 9º Ano). O Caderno de Oficinas de Memórias, por exemplo, tinha 17 oficinas, mas no contexto remoto as docentes precisaram transformá-lo em 08 oficinas. Construíram sequências didáticas para aulas síncronas e assíncronas e dois Cadernos para cada gênero textual. Para atender o público da Educação especial, as professoras elaboraram oficinas personalizadas. Considerando ainda a temática do futebol e realidades locais, Maiane Luz de Vasconcelos, professora de Educação Física, contribuiu com a construção de uma oficina, tecendo a interdisciplinaridade.


A nova realidade e dificuldades de acesso à internet limitavam a participação dos educandos que apenas recebiam as atividades domiciliares. Então, algo precisava ser feito. A articuladora orientou a produção de atividades dialógicas, ou seja, a docente precisava conversar com o estudante. As oficinas (impressas) exigiam o dizer, a linguagem oral, a fala espontânea e viva das professoras. Desse modo, inspirando-se nas postagens multimídias, que usam uma linguagem coloquial, e nas narrativas machadianas em que o narrador dialoga com o leitor, as atividades eram interrompidas com reflexões, comentários, incentivo para a sua realização ou parar para beber uma água ou brincar um pouco.


Como nos diz Carlos Drummond de Andrade, “no meio do caminho tinha uma pedra”. As docentes tiveram apenas duas semanas para realizar todo o planejamento. Para a etapa do 1º Caderno das Oficinas, o tempo pedagógico considerado foi de 20h/a, dentro de 18 dias. Já para a reescrita, 2º Caderno, 05 h/a, intervalo de 05 dias. Esse período de 23 dias úteis não podia ser ampliado porque houve o recesso junino e o prazo final da OLP não foi modificado pela organização do concurso do CENPEC (16/08/2021).


Alguns estudantes recebiam apenas os Cadernos em casa, mas outros tinham aulas remotas por meio do Google Meet e WhatsApp. Ferramentas variadas foram utilizadas (Wordwall, Tik Tok, Quiz, QR Code, Padlet, fotos, gravação de vídeos, entrevistas, depoimentos, enquetes, saraus etc.) para engajá-los na leitura literária, rodas de conversas sobre o terreno vivido deles, as questões de linguagens do viver do dia a dia e produções textuais.


Uarlei Barreto Ferreira, 8º Ano, Escola Municipal Anna Ribeiro de Araújo Góes Bitencourt. Estudantes do 6º Ano da Escola Municipal Laura Batista. Estudante Michael Souza Santos Amorim, 9º Ano, Escola Municipal Prof. Jorge Luís Ferreira Teixeira.



A OLP privilegia o aspecto formativo do concurso, diferente de outros concursos que têm apenas a aplicação da avaliação. Além do planejamento e aplicação das oficinas para os estudantes, há espaços formativos para os educadores, como webinários sobre os temas principais, cursos formativos online, Cadernos Docentes, pílulas pedagógicas com propostas de atividades, dentre outras ações. Não faltaram tarefas para as professoras, as quais tinham outras turmas e desenvolviam as práticas interdisciplinares.


Desenvolver esse concurso literário na pandemia foi estar disposta a aprender com as pedras. Aquilo que se sabia fazer, não funcionava, era como uma “cartilha muda”. Era preciso ouvir a pedra para se aprender alguma coisa. Nas lições de Manoel de Barros, “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.” O fazer docente passou a olhar essa substância dura como uma metáfora para esculpir outro jeito de ensinar a arte da vida por trás da dureza, da concretude da matéria.


Se no ensino remoto a carga de trabalho docente aumentou, a OLP ampliou significativamente essa sobrecarga, o que alargou a aridez da educação. Neste sertão virtualizado, em que não é fácil ensinar, buscou-se (des)educar com as pedras, desviar-se do conteudismo tradicional. Professoras e alunos desaprendiam para educar-se com a arte. O frescor veio como gotas de solidariedade entre as docentes e discentes, assim, entre as adversidades encontrou-se a brisa.


O envolvimento dos estudantes, as leituras, dúvidas e inventividade trouxeram outro modo de fazer educação. A escuta das narrativas do sujeito está ligada ao mundo simbólico das representações, ao sensível, e, por meio do despertar do vivido, da elaboração dessas imagens de si, do outro e do mundo, o ser reconstrói as suas experiências na escola, na vida cotidiana, na sociedade. Assim, com a leitura das pedras, a garotada percebia o mundo de outra forma. Teciam as memórias de pessoas que entrevistaram como se fossem suas e aprendiam com elas a pensar sobre o seu SERtão catuense, baiano e nordestino. Produziam crônicas a partir de realidades do cotidiano, traziam as suas marcas e inquietações. Foram várias escritas da vida, “escrevivências”, as quais podem de algum modo ajudá-los a pensar.


Para a conclusão deste projeto de formação leitora e autoral dos estudantes, houve uma reunião com a equipe gestora e pedagógica. Os cadernos entregues fora do prazo dificultaram o processo pedagógico. As sertanejas das Letras precisavam de tempo para produzir o Relato de prática e organizar o conjunto de materiais que deveriam ser postados até o dia 16/08. Então, após as oficinas da reescrita, a SMEC garantiu uma semana de trabalho para a produção desse conjunto de materiais que contariam a trajetória literária com a turma. E os estudantes realizaram atividades assíncronas de gamificação elaboradas pela articuladora de Português.


Com efeito, usando os versos do poema “Pedras” de Cecília Meireles, “E ali ficavam expostas ao mundo e às horas volúveis para submissas e dóceis, terem outra densidade: como nuvens”, o trabalho das mestras ganhou a leveza poética. No dia 25/08, conforme a organização de Evanildes Silva e Kátia Alcântara e apoio de Sheila Daiana F. Sales Santos e Olga Campos, por meio do Google Meet, a Comissão Julgadora Municipal de Catu-BA composta por: Anaci Carneiro de Sant’Ana, Edite Maria Santos, Isabel Silva Silveira, Kelly Cristina Oliveira da Silva e Maria Emília Pinto Santana – um jardim de poíesis –, selecionou os textos relacionados abaixo para participarem da Etapa Estadual da 7ª edição da OLP.


  • Relato de Prática de Memórias Literárias: “Tecendo memórias: De ponto em ponto junto os retalhos da minha história Escola”, de Mônica Santana Pessoa (Escola Municipal Desª Maria Gabriela Sampaio Seixas).

  • Relato de Prática de Crônicas: “A distância também aproxima: O lugar onde eu vivo está dentro de mim”, de Ionara França Conceição de Oliveira (Escola Municipal Gilberto Alves de Araújo).

Poetas como João Cabral, Drummond, Manoel de Barros, Cecília Meireles e Cora Coralina nos mostram as lições das pedras. E todas as professoras viram nascer flores dentro desses corpos endurecidos e dóceis, pois todos os Relatos refletem os desafios da educação e apontam o educar poético. Dessa forma, a dialética de ensinar e aprender por meio da pedagogia da pedra na OLP mostrou que é possível construir vivências poéticas imagináveis e libertárias. Tudo de pedra. Entre pedras cresceu a minha poesia”, Cora coralina.






Evanildes Teixeira da Silva, Letras (UNEB),

Mestra em Crítica Cultural (Pós-Crítica/UNEB),

Especialista em Ensino de Filosofia no Ensino Médio (UFBA),

Articuladora de Língua Portuguesa (SMEC).

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