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Tecendo memórias: De ponto em ponto junto os retalhos da minha história

  • Foto do escritor: Educonexão Fund Séries Finais
    Educonexão Fund Séries Finais
  • 8 de mar. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 12 de mar. de 2022


O lugar onde vivo! Amor, paz, respeito... Felicidade! Estas são palavras ouvidas ao pensar no lugar que nos faz bem, onde nos sentimos amparadas e acolhidas. Assim começa a caminhada para a construção de histórias; a construção deste lugar com as palavras e memórias de cada estudante.


Conhecer o lugar onde se vive nos leva a construir a nossa história, e desta forma vamos, como numa colcha de retalhos, juntando as memórias e formando assim, o nosso viver. Neste passo caminhamos e vamos agregando à nossa colcha, momentos de formação do nosso eu. Somos formados a partir dos nossos viveres, das nossas memórias, e das memórias daqueles que fazem parte da nossa história.


Quando pensamos no lugar onde vivemos, despertamos os lugares que moram na gente, e estes lugares são faíscas que ativam as chamas da memória e nos levam a revisitar e reviver momentos que foram e são importantes em nossa vida, e que contribuem para criar um “museu do eu”.

Neste museu está presente a nossa história de vida, e cada vez que damos voltas pelo nosso interior surgem elementos como fotos, objetos antigos, e também narrativas que vão tecendo os fios da nossa história, ativando a memória e construindo nossas existências. Elas apresentam nossas marcas culturais, econômicas e sociais que representam cada momento vivido, sejam eles tristes ou alegres, e que costumam ficar eternizados na nossa memória.




Ah! Como é bom passear por dentro de nós, visitar nossos pensamentos e perceber que há pedaços de uma tecitura que se enovelam e criam uma linda história. Os estudantes foram convidados a fazer um “voo nas asas coloridas da infância”, despertando cores, cheiros e sabores que compõem a imagem de possíveis travessuras, brincadeiras, amigos que talvez estivessem adormecidos dentro de cada um.

A memória é lua no céu! E o céu com estrelas seculares, nos faz pensar nas pessoas que fazem parte da nossa vida, e que também são responsáveis pela nossa história, por isso durante o nosso caminhar, buscamos informações, com pessoas que nos ajudam a ativar as memórias sobre o lugar onde vivemos. A partir desta experiência e das percepções causadas por ela, começamos a construção escrita das memórias, e a partir daí os estudantes passam a ser autores da própria história.


“No meio do caminho tinha uma pedra (...)/ Nunca me esquecerei desse acontecimento”. Sempre que precisar, voltarei em minhas memórias e lembrarei desta pedra que me fez mais forte. Os desafios nos tornam fortes! Por isso, penso que é importante guardarmos no baú das nossas memórias, tudo aquilo que nos faz crescer, nos faz reviver e revisitar momentos de construção da história de nossas vidas.

Certamente contarei, daqui a alguns anos, desta minha experiência com a turma do 6º ano matutino, da Escola Municipal Desª Maria Gabriela Sampaio Seixas. Uma turma recheada de sonhos, medos e incertezas, mas muito amor em cada coração, e que me impulsionou a participar com eles deste momento de composição de mais um fio das nossas histórias. Eis algumas delas!


Sei que a nossa colcha está longe de acabar, mas também sei que cada retalho colocado tem um significado importante. E neste costurar, as nossas vidas estão sendo contadas nos pontos altos e baixos da agulha.

Olhando estas histórias com um olhar normativo, mas lúdico, aos poucos fomos dando vida a estas memórias e tornando-as vivas com vírgulas, exclamações, reticências que foram se encaixando e delineando histórias, experiências e sensações de estar participando daquele momento.


Hoje percebo que as pedras podem ser retiradas do nosso caminho e servirem como aprendizado para a nossa vida. Quantas memórias são resgatadas neste processo!


Acredito que somos capazes de ressignificar a educação, cada vez que somos desafiados a encarar o novo. E sempre haverá um novo pela frente!


Lembro-me de uma simbologia importante em minha vida – a transformação do bicho da seda. Percebo estes estudantes como bichos da seda, que tecem a sua casinha e esta vira um casulo onde vão sendo transformados pelos conhecimentos que adquirem durante o processo, e num certo momento este bicho que se fechou, morre e se converte numa linda borboleta com asas para voar. Um ser livre para seguir em frente.

Sinto-me feliz por saber que algumas vidas estão sendo transformadas, estão sendo pintadas com novas cores. Meu ensinar também foi transformado, pois percebo que é preciso muito mais do que um quadro e um piloto para levar conhecimento aos nossos estudantes. Vejo que é necessário a cada novo dia percebermos que somos capazes de ir além e de se reinventar. Reinventar-se e ser empático!


Observo que eles aprenderam que ler é muito mais do que decifrar palavras, que é compreendê-las e usá-las com maestria.


E com os acentos nos devidos lugares, perceberam a necessidade de usar a exclamação para expressar suas emoções; a interrogação para questionar; as reticências para dizer o não dito; a vírgula para seguir em frente com calma; o ponto final para parar, mas que este pode ser também um ponto de continuação da história, um ponto de continuação. De posse destes conhecimentos suas habilidades para a escrita começam a fluir. Sei que esta escrita ainda está verde, mas amadurecerá, com certeza!


É preciso observar também que numa turma com retalhos tão diversos, podemos criar uma colcha heterogênea, com memórias diversas, mas com uma função em comum. E como dizia Cora Coralina, nós somos feitos de retalhos, de pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela nossa vida e que vão sendo costurados na alma. Nem sempre eles são bonitos e felizes, mas deixam marcas e nos fazem ser quem somos.

Por isso, a nossa colcha nunca estará finalizada, pois haverá sempre um novo retalho a ser acrescido. E na nossa vida é assim também “há sempre pedaços de outras gentes que acabam se tornando parte da gente também”.


Concluo com a certeza de que os retalhos que são deixados em nós, contribuem para formar quem somos. Assim, sou feliz por agregar dezoito novos retalhos à minha história; e consequentemente deixar pedacinhos de mim pelos caminhos da vida deles, fazendo parte das suas memórias.


Esta experiência me fez compreender o quanto somos importantes no processo de ensino aprendizagem. E do quão fundamental é a resiliência que devemos usar. Esta resiliência vai muito além do enfrentar as pedras no caminho, inclui o aprendizado com a situação enfrentada, e o retorno deste aprendizado para o outro.

A confecção da colcha de retalhos, contribuiu para a minha vida docente, a partir do momento que ampliou o meu olhar para perceber que instruir-se e lecionar são atividades que estão vinculadas.


Aprendi, especialmente, a educar! E neste caminho do educar, expandi os meus conhecimentos. E digo ainda que, de ponto em ponto, no caminhar da agulha para atar os retalhos, e formar a colcha, eu serei, por vezes, a agulha. Serei também a linha, mas nunca deixarei de ser um retalho na vida do outro.


Mônica Santana Pessoa, Letras (UNEB),

Especialista em Língua, Linguística e Literatura (FACIBA),

Professora de Língua Portuguesa de Vice-Diretora da

Escola Municipal Des. Maria Gabriela Sampaio Seixas.


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